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Neurobiologia

Exercício físico e BDNF: como os treinos mudam a química do cérebro

O BDNF é uma neurotrofina essencial para a memória e a plasticidade sináptica. Uma sessão de treinamento intervalado de alta intensidade eleva seus níveis séricos em 82%. Análise do mecanismo do lactato e dos dados de 2024–2026.

6 min de leituraNeurobiologia11.09.2026
Resposta breve

Uma sessão de treinamento intervalado de alta intensidade eleva o BDNF sérico em 82% contra 32% no cardio moderado (Birinci et al., Scientific Reports, 2026, n = 12). O alto lactato acumulado no exercício intenso ativa a síntese de BDNF via eixo Sirt1/PGC-1α/FNDC5. Os dados são observacionais e experimentais; parte deles foi obtida em amostras pequenas.

O que é o BDNF e por que é importante para o cérebro?

O BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) é uma proteína da família das neurotrofinas. Ele apoia a sobrevivência dos neurônios, garante a formação e o fortalecimento das sinapses e regula a neurogênese no giro denteado do hipocampo. Em nível molecular, o BDNF ativa o receptor TrkB, iniciando cascatas responsáveis pela potenciação de longa duração — a base celular da aprendizagem e da memória.

Níveis cronicamente baixos de BDNF estão associados à depressão, ao declínio cognitivo e a uma série de condições neurodegenerativas. O exercício físico é o estimulador não farmacológico de produção de BDNF mais estudado em humanos.

Como a intensidade do exercício afeta o BDNF?

O ensaio clínico randomizado cruzado (Birinci et al., Scientific Reports, 2026, n = 12 jovens saudáveis) comparou três protocolos de 24 minutos: contínuo de baixa intensidade (50–60% MAS), contínuo moderado (70–80% MAS) e intervalado de alta intensidade — HIIT (110–120% MAS, intervalos de 15 segundos). Resultados do BDNF sérico:

  • Exercício de baixa intensidade: +16%
  • Exercício contínuo moderado: +32%
  • HIIT: +82% (estatisticamente superior aos outros dois protocolos e ao controle; p < 0,001)

Apenas o HIIT produziu melhora significativa na função cognitiva: o tempo no teste de Stroop reduziu 6,3% contra −0,9% no grupo em repouso. O lactato de pico após HIIT foi de 14,97 ± 0,84 mmol/L contra 4,51 no exercício moderado — os autores associam a elevação mais pronunciada do BDNF justamente à sinalização pelo lactato.

A revisão sistemática de 12 estudos (Mielniczek & Aune, Brain Sciences, 2024) confirmou: o HIIT é o protocolo que com mais frequência causa elevação do BDNF, embora os resultados sejam heterogêneos devido a diferenças de intensidade, duração e amostras. A meta-análise de 17 ECRs em idosos (Cheng et al., Frontiers in Aging Neuroscience, 2025, n = 900): efeito geral do exercício aeróbico sobre o BDNF — SMD = 0,62 (IC 95%: 0,06–1,18; p = 0,03).

O HIIT com lactato de pico de 15 mmol/L elevou o BDNF em 82% e melhorou o teste de Stroop em 6,3% — estatisticamente superior ao cardio moderado e ao repouso (Birinci et al., 2026). Amostra de 12 pessoas: resultados preliminares.

O papel do lactato: combustível cerebral ou molécula de sinalização?

O lactato produzido pelos músculos durante o exercício intenso penetra no cérebro pelo transportador de monocarboxilato MCT1. A revisão Zhu et al. (Frontiers in Endocrinology, 2025) mostrou: durante o exercício o cérebro aumenta a oxidação do lactato em 33% e simultaneamente reduz o consumo de glicose em 25% — o lactato torna-se o substrato metabólico preferencial durante a alta atividade. Intracelularmente, o lactato ativa o eixo Sirt1/PGC-1α/FNDC5, que inicia a transcrição do gene BDNF. Paralelamente, atua a via cAMP/PKA/CREB, também envolvida na regulação da neurogênese.

Confirmação direta em humanos: a infusão intravenosa de lactato de sódio (Roja et al., Frontiers in Cellular Neuroscience, 2025, n = 18 voluntários saudáveis) até o nível de 5,9 mmol/L — comparável ao exercício moderado — elevou o pró-BDNF circulante em 55–68%. Ressalva importante: o BDNF maduro (mBDNF), a forma biologicamente ativa, não aumentou com a infusão isolada de lactato — para sua formação parecem ser necessários estímulos adicionais do exercício físico: catecolaminas, tensão mecânica muscular.

O que acontece com o treino regular?

A revisão sistemática de 8 ECRs em adolescentes (Rico-Gonzalez et al., Sports, 2025) mostrou: a elevação sustentada do BDNF é alcançada com alta intensidade e duração mínima de seis semanas. O aumento do BDNF nos diferentes protocolos variou de +6,99% (aeróbico moderado) a +19,22% (aeróbico de alta intensidade) e +16,17% (taekwondo, 16 semanas).

Em idosos (meta-análise Cheng et al., 2025, 17 ECRs, n = 900) todas as três formas de exercício aeróbico — caminhada, corrida, ciclismo — elevaram o BDNF (SMD geral = 0,62; p = 0,03). Na depressão, a meta-análise de 36 ECRs com 2515 pacientes (Depression and Anxiety, 2024) mostrou que a combinação de exercício aeróbico e resistido produzia a maior elevação de BDNF de todos os formatos comparados.

O que ainda não está comprovado?

A meta-análise de 12 ECRs em idosos (Zhang et al., Medicine, 2025, n = 774) não identificou aumento estatisticamente significativo do volume do hipocampo com o treino (SMD = 0,09; p = 0,20) — isso contesta a amplamente difundida tese sobre o crescimento do hipocampo induzido pelo exercício, baseada principalmente no estudo Erickson et al. (PNAS, 2011). Os autores concluem que o exercício garante neuroplasticidade funcional sem alterações estruturais mensuráveis.

O mecanismo do receptor HCAR1 (GPR81) para lactato é uma hipótese de trabalho que requer refinamento. Camundongos nocaute com HCAR1 removido não perderam adaptações comportamentais ao exercício (Klahn et al., eNeuro, 2026), o que indica que a sinalização por lactato é multicanal. A maioria dos dados sobre mecanismos moleculares foi obtida em experimentos com animais ou in vitro.

O que isso significa na prática
  • A intensidade do exercício determina a magnitude da elevação aguda do BDNF: o HIIT supera o cardio moderado em 2,5 vezes (+82% vs. +32%, Birinci et al., 2026). A causa é o maior lactato como molécula de sinalização.
  • Para um efeito neurotrófico sustentado são necessárias pelo menos 6 semanas de treino regular com intensidade suficiente (Rico-Gonzalez et al., Sports, 2025, 8 ECRs).
  • Para idosos pode ser suficiente a caminhada moderada: a meta-análise de 17 ECRs (Cheng et al., 2025, n = 900, 55+) mostrou efeito significativo do exercício aeróbico sobre o BDNF (SMD = 0,62).
  • Na depressão, a combinação de exercício aeróbico e resistido produz a maior elevação de BDNF de todos os formatos estudados (meta-análise de 36 ECRs, 2024).
  • Dados sobre crescimento do volume do hipocampo com o treino não foram encontrados na meta-análise de 12 ECRs (774 participantes, 2025): a neuroplasticidade é funcional, mas as alterações estruturais não são confirmadas em nível de revisão sistemática.

Perguntas frequentes

Qual tipo de treino eleva o BDNF de forma mais eficaz?
Pelos dados disponíveis — o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT). Uma sessão de HIIT elevou o BDNF sérico em 82% contra 32% no cardio moderado e 16% no de baixa intensidade (Birinci et al., 2026, n = 12). A revisão sistemática de 2024 (12 estudos) confirmou que o HIIT é o que com mais frequência causa elevação significativa do BDNF, embora os resultados sejam heterogêneos devido a diferenças nos protocolos.
Por que o exercício intenso eleva o BDNF mais do que o moderado?
A hipótese principal é a sinalização por lactato. No HIIT, o lactato atinge 14–15 mmol/L contra 2–4 mmol/L no exercício moderado. Ao penetrar no cérebro pelo transportador de monocarboxilato MCT1, o lactato ativa o eixo Sirt1/PGC-1α/FNDC5, que inicia a transcrição do gene BDNF (Zhu et al., Frontiers in Endocrinology, 2025).
Os exercícios aumentam o volume do hipocampo?
A questão permanece em aberto. A meta-análise de 12 ECRs (Zhang et al., Medicine, 2025, 774 participantes idosos) não identificou efeito estatisticamente significativo no volume do hipocampo (SMD = 0,09; p = 0,20). O benefício funcional do exercício para o cérebro não é contestado, mas crescimento estrutural mensurável em nível de revisão sistemática não foi confirmado.
Um único treino é suficiente para um efeito duradouro no cérebro?
Não. A elevação aguda do BDNF ocorre após uma sessão e retorna ao nível basal em poucas horas. Para melhorias cognitivas sustentadas, as revisões sistemáticas apontam para um mínimo de seis semanas de treino regular com intensidade suficiente (Rico-Gonzalez et al., Sports, 2025, 8 ECRs em adolescentes).

Fontes

  1. Birinci YZ, Pancar S, Simsek H et al. «High-intensity interval training differentially modulates acute BDNF and cognitive responses in young adult males: a randomized crossover trial». Scientific Reports. 2026. DOI: 10.1038/s41598-026-56739-4. nature.com/articles/s41598-026-56739-4
  2. Mielniczek M, Aune TK. «The Effect of High-Intensity Interval Training (HIIT) on Brain-Derived Neurotrophic Factor Levels (BDNF): A Systematic Review». Brain Sciences. 2024. PMC11764394. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11764394/
  3. Cheng Y, Liu Y, Ma J et al. «Effects of three aerobic exercise modalities on circulating brain-derived neurotrophic factor in older adults: a systematic review and meta-analysis». Frontiers in Aging Neuroscience. 2025. PMC12507801. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12507801/
  4. Rico-Gonzalez M, Gonzalez-Devesa D, Gomez-Carmona CD, Moreno-Villanueva A. «Exercise as Modulator of Brain-Derived Neurotrophic Factor in Adolescents: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials». Sports. 2025. PMC12390530. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12390530/
  5. Zhu X, Chen W, Pinho RA, Thirupathi A. «Lactate-induced metabolic signaling is the potential mechanism for reshaping the brain function — role of physical exercise». Frontiers in Endocrinology. 2025. PMC12183050. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12183050/
  6. Roja J, Fiori Ameller N, Grip J, Apro W, Moberg M. «Lactate infusion increases circulating pro-brain-derived neurotrophic factor levels in humans». Frontiers in Cellular Neuroscience. 2025. PMC12500751. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12500751/
  7. Zhang H, Liu J, Zhang W. «The impact of exercise intervention on hippocampal volume in the elderly: A meta-analysis». Medicine (Baltimore). 2025. PMC12727283. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12727283/
  8. Klahn N et al. «Limited Contribution of the Lactate Receptor HCAR1 to Exercise-Induced Behavioral and Hippocampal Adaptations». eNeuro. 2026. PMC13395482. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13395482/
Este material é de caráter educativo e não constitui aconselhamento médico.

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