VO2max e mortalidade: o que os dados de 2024-2025 acrescentaram
A relação entre a capacidade cardiorrespiratória e o risco de morte é conhecida há décadas. Os novos estudos lhe deram uma escala de dezenas de milhões de observações — e mostraram com mais clareza quem ganha mais com o treino.
Segundo a revisão de 199 coortes e 20,9 milhões de observações (BJSM, 2024), alta capacidade cardiorrespiratória reduz o risco de morte em 53% em relação à baixa, e cada +1 MET o reduz em 11-17%. A novidade de 2024-2025: esse efeito foi confirmado em amostras enormes, e testes simples preveem a mortalidade quase com a mesma precisão do VO2max de laboratório. O maior ganho é de quem parte lá de baixo.
VO2max é o volume máximo de oxigênio que o organismo é capaz de absorver e entregar aos músculos por minuto de esforço. É um indicador integral do funcionamento do coração, dos pulmões, dos vasos e das mitocôndrias e, ao mesmo tempo, um dos preditores mais fortes que se conhece para a expectativa de vida. A relação em si — "mais capacidade, menos mortalidade" — não é novidade: já era demonstrada nos anos 1990. Mais interessante é o que os grandes estudos de 2024-2025 acrescentaram a esse clássico.
O que o clássico já dizia
O ponto de referência para entender o "teto" do benefício é o estudo da Cleveland Clinic, publicado no JAMA Network Open em 2018. Os autores analisaram 122.007 pacientes que passaram por um teste de esforço em esteira. A conclusão foi dura: a relação entre capacidade e sobrevivência não tinha limite superior — quanto maior o condicionamento, menor a mortalidade, sem ponto de saturação.
Os números desse trabalho soam quase inacreditáveis. Pessoas com a capacidade mais baixa tinham risco de morte cinco vezes maior (HR 5,04) do que o grupo de elite. Para efeito de comparação: o tabagismo elevava o risco, na mesma amostra, em 1,41 vez, e o diabetes, em 1,40. Ou seja, a baixa capacidade cardiorrespiratória atingia a sobrevivência com mais força do que os fatores de risco clássicos que todo mundo teme.
O que os dados de 2024-2025 acrescentaram
A principal contribuição dos novos estudos não é uma nova sensação, e sim a escala e o rigor. Em 2024, o British Journal of Sports Medicine publicou uma revisão de metanálises que reuniu 199 coortes únicas e mais de 20,9 milhões de observações. Sobre essa base colossal confirmou-se uma clara relação dose-resposta: cada 1 MET adicional de capacidade reduzia o risco de morte por qualquer causa em 11-17%, e o risco de insuficiência cardíaca em 18% por cada MET.
Na comparação direta dos grupos extremos, pessoas com alta capacidade tinham risco de morte 53% menor do que as de baixa capacidade (HR 0,47). Isso não é a conclusão de uma única equipe em uma única amostra — é um sinal consistente vindo de centenas de coortes no mundo todo.
O segundo acréscimo importante é o estudo de 2025 publicado no Journal of Sport and Health Science (42 estudos, 35 coortes, 3,8 milhões de observações). Ele mostrou que a capacidade avaliada por testes simples — esforço submáximo ou até fórmulas de cálculo sem analisador de gases — prevê a mortalidade quase com a mesma precisão do "padrão-ouro" com a medição laboratorial do VO2max. A redução do risco por cada MET foi de 14% para a mortalidade geral (RR 0,86) e de 16% para a cardiovascular (RR 0,84).
Quem tem o maior ganho
Esta é a conclusão mais prática, e ela vai contra a intuição. A maioria acha que quem ganha são os que já estão em boa forma. Na prática, o maior ganho relativo de sobrevivência é de quem parte lá de baixo.
O estudo clássico de Steven Blair (JAMA, 1995) acompanhou homens que, entre duas avaliações, mudaram seu nível. Os que passaram da categoria "fora de forma" para "em forma" reduziram o risco de morte em 44% em comparação com os que continuaram fora de forma. Em números absolutos, a mortalidade caía de 122 casos por 10.000 pessoas-ano entre os destreinados estáveis para 67,7 entre os que melhoraram. Cada minuto adicional na esteira entre as avaliações representava menos 7,9% no risco.
A lógica é simples: a curva "capacidade versus risco" é mais íngreme justamente na sua base. Passar de um nível muito baixo para um simplesmente baixo salva mais vidas por unidade de esforço do que passar de bom para excelente. Para quem hoje não treina, as primeiras semanas de exercício aeróbico regular são o investimento em sobrevivência mais rentável que existe.
E quanto à genética do VO2max
Aqui é importante não confundir duas coisas. O VO2max de fato evolui de forma diferente em pessoas diferentes. No estudo HERITAGE, com um mesmo programa de 20 semanas, o ganho médio foi de 400 ml/min, mas a variação individual foi colossal — de −114 a +1097 ml/min. Cerca de 47% dessas diferenças na resposta são explicadas pela hereditariedade. Existem "respondedores fortes" e "respondedores fracos".
Mas daí não se conclui que para os "respondedores fracos" o treino seja inútil. A redução da mortalidade pelo exercício regular é observada mesmo em quem tem um aumento modesto de VO2max: também atuam as adaptações periféricas, o controle da pressão e o metabolismo da glicose. A genética determina quão íngreme será a sua curva pessoal — mas não anula o fato de que ela vai subir. Faz sentido comparar você com você mesmo de seis meses atrás, e não o seu VO2max com o de outra pessoa.
Quanto isso dá em treino
Nenhum desses estudos exige volumes de maratona. Um MET é, mais ou menos, a diferença entre "mal consigo me mexer" e "consigo caminhar com energia ladeira acima". As recomendações básicas em que a medicina baseada em evidências converge são cerca de 150 minutos de exercício aeróbico moderado por semana, mais alguns intervalos um pouco mais intensos para quem está pronto. Para uma pessoa destreinada, até caminhadas rápidas regulares já a deslocam exatamente naquela faixa da curva em que mais vidas são salvas.
- A capacidade cardiorrespiratória é um dos preditores mais fortes de mortalidade: a diferença entre boa e má forma é maior do que o efeito do tabagismo ou do diabetes.
- O maior ganho é de quem parte do zero. Se você hoje não treina, as primeiras semanas de exercício aeróbico regular trazem um efeito desproporcionalmente grande.
- Compare você com você mesmo. A genética determina a inclinação da sua curva de VO2max, mas não anula o seu crescimento.
- A referência é cerca de 150 minutos de exercício aeróbico moderado por semana. A regularidade importa mais do que a intensidade e do que a medição exata do VO2max.
- O teste de laboratório não é obrigatório: indicadores simples de ritmo e distância refletem a mesma dinâmica de capacidade.
Perguntas frequentes
Fontes
- Lang J.J., Prince S.A. et al. «Cardiorespiratory fitness is a strong and consistent predictor of morbidity and mortality among adults: an overview of meta-analyses representing over 20.9 million observations from 199 unique cohort studies». British Journal of Sports Medicine, 2024;58(10):556–566. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11103301
- Singh B. et al. «Comparison of objectively measured and estimated cardiorespiratory fitness to predict all-cause and cardiovascular disease mortality in adults: a systematic review and meta-analysis of 42 studies representing 35 cohorts and 3.8 million observations». Journal of Sport and Health Science, 2025. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39271056
- Mandsager K., Harb S., Cremer P. et al. «Association of Cardiorespiratory Fitness With Long-term Mortality Among Adults Undergoing Exercise Treadmill Testing». JAMA Network Open, 2018;1(6):e183605. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6324439
- Blair S.N. et al. «Changes in physical fitness and all-cause mortality. A prospective study of healthy and unhealthy men». JAMA, 1995;273(14):1093–1098. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7707596
- Williams C.J., Williams M.G. et al. «Genes to predict VO2max trainability: a systematic review» (HERITAGE Family Study data). BMC Genomics, 2017;18(Suppl 8):831. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5688475